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  • Catarina Araújo

À Descoberta do Oeste - I


A região Oeste de Portugal é formada pela parte norte do distrito de Lisboa e parte sul do distrito de Leiria. A oeste é delimitada pelo oceano atlântico e a este pela lezíria do Tejo. Tem ao todo 12 concelhos que formam a Comunidade Intermunicipal do Oeste: Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras.


Há muito tempo que queríamos melhor esta região que tanto tem para ver e fazer, mas desta vez focamo-nos em três locais: Peniche, Óbidos e Nazaré.



Peniche e Ilha da Berlenga



Após a chegada e pernoita em Peniche, dedicamos o primeiro dia a explorar a ilha da Berlenga. Esta ilha pertence ao Arquipélago das Berlengas, que fica localizado na costa ocidental de Portugal, a noroeste do Cabo Carvoeiro, e é composto pela ilha da Berlenga e o conjunto de ilhas ou ilhéus das Estelas ou dos Farilhões. Destas, apenas a Berlenga pode ser visitada, e com uma lotação diária de 550 visitantes. O arquipélago é uma Reserva Natural desde 1981, pela sua elevada importância como zona de nidificação de aves marinhas (algumas delas ameaçadas), pela presença de plantas endémicas e pelo rico ecossistema marinho. Mais tarde, este conjunto de ilhas e sua envolvente marinha recebeu mais reconhecimentos quer a nível europeu (Zona Especial de Proteção de Aves e Rede Natura 2000), quer a nível mundial, tornando-se Reserva Mundial da Biosfera em 2011. O símbolo da Reserva Natural é o Airo, uma ave que se assemelha ao pinguim, e que já nidificou na Berlenga.


A presença e influência humana ao longo dos tempos também marcam a paisagem e dois bons exemplos disso são o Forte de S. João Baptista e o património arqueológico subaquático.


Património Cultural


O Forte de S. João Baptista é uma fortaleza de defesa militar, de planta octogonal, construída em 1654. Foi erguida para reforçar a defesa contra piratas e corsários na nossa costa. O Forte foi construído com a rocha existente na ilha, um granito rosa de grande dureza e está ligado à ilha por uma ponte em alvenaria com uns arcos. Esta é uma das paisagens mais fotografadas da ilha. Um momento muito conhecido da sua história foi a Batalha das Berlengas, travada em 1666, em que uma frota espanhola de 15 embarcações com centenas de homens comandados por Diego de Ibarra atacaram a fortaleza com o intuito de raptar a rainha D. Maria Francisca de Sabóia que chegava a Portugal para se casar com o rei D. Afonso VI. Estando Portugal em guerra com Espanha, os espanhois não queriam que se realizasse este casamento que firmava uma aliança com França. Na defesa da Fortaleza estavam cerca de 28 soldados liderados pelo comandante António Avelar Pessoa, que resistiram heróicamente ao ataque, praticamente sem baixas contra 500 soldados espanhois mortos, uma nau afundada e duas gravemente danificadas. Após um longo cerco os soldados portugueses ficaram sem mantimentos e munições e acabaram sendo traídos por um desertor. O comandante português foi morto a bordo de uma das embarcações espanholas e a fortaleza acabou sendo destruída pelas tropas espanholas. Mais tarde foi reconstruída e, posteriormente, quando já não tinha utilidade militar, foi abandonada e usada como abrigo de pescadores até à década de 50, data em que foi construído o Bairro dos Pescadores. O Forte de São João Baptista é hoje Monumento Nacional.


A nau espanhola afundada, Covadonga, é hoje um dos pontos de interesse para um elevado número de mergulhadores que procuram este destino de mergulho pela transparência das suas águas e espólio sub-aquático. Os achados arqueológicos subaquáticos da Antiguidade sugerem que esta ilha era um ponto estratégico muito utilizado por embarcações que percorriam rotas comerciais entre o mediterrânio e as regiões mais setentrionais. Nesta região existem também vários barcos afundados que atraem muitos mergulhadores a estas águas.


O Bairro dos Pescadores foi construído em 1941 para albergar a comunidade piscatória da ilha e tem o nome do Comandante António Avelar Pessoa. É um pequeno aglomerado de 10-12 casas e funciona não como morada fixa, mas como sítio de repouso para os pescadores durante os dias que não regressam a terra.


Na zona marinha que circunda o arquipélago as águas são muito produtivas e albergam peixes de elevado valor comercial. Antigamente a prática da pesca era bastante destrutiva para os ecossistemas e incluía técnicas com uso de dinamite e a técnica do arrasto. Todos estes métodos foram abolidos devido ao seu impacto negativo e, atualmente, a pesca que se pratica na Berlenga é de tipo artesanal, sendo as únicas técnicas autorizadas o cerco e o palangre. As principais espécies pescadas são a cavala, sardinha, robalo e sargo. Os pescadores dizem que aqui está "o melhor peixe do mundo". Os pilados, uma espécie de caranguejos, são usados como isco de pesca.


A SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) está a desenvolver um projeto em parceria com os pescadores, com o objetivo de medir o impacto da atividade piscatória nas populações de aves marinhas e implementar medidas de mitigação da captura acidental de aves.


Na zona onde está implantado o Parque de Campismo existia um Mosteiro da Nossa Senhora da Misericórida, mandado construir no século XVI por ordem de D. Manuel. Funcionou entre 1513 e 1548 e albergou uma comunidade de frades jerónimos que foram depois forçados a abandonar o mosteiro devido aos frequentes ataques de corsários.


O Farol Duque de Bragança foi edificado em 1841 por Gaudêncio Fontana no ponto mais elevado da ilha, a 112m acima do mar, onde assinala a localização da ilha a 30 milhas de distância. Na nossa visita o Farol estava encerrado ao público.


Forte de São João Baptista. Esquerda: O terraço é um excelente miradouro. Direita: Vista de uma janela do Forte.


Geologia


O arquipélago das Berlengas é um monumento geológico, um registo impressionante da história da terra e da formação dos continentes e dos oceanos. A linha da costa é muito recortada com enseadas, grutas e cavidades naturais, arcos, ilhéus e rochedos. Num passeio às grutas é possível observar algumas destas formações como o Furado Grande e o Furado Seco, a Cova do Sono, a Cabeça do Elefante, a Gruta Azul ou a Rocha da Baleia.


Esquerda: Rocha da Baleia. Centro. Gruta Azul com várias tonalidades devido aos líquenes. Direita: Cabeça do Elefante


As grutas situadas nas arribas a 20/25 m de altitude sugerem que o nível do mar já esteve posicionado naquele horizonte. Alguns relevos no planalto da Berlenga, como a formação de marmitas, sugerem que o planalto era uma antiga plataforma de abrasão marítima.


A Ilha da Berlenga, ou Berlenga Grande, divide-se em duas partes, quase totalmente separadas por uma falha sísmica que a norte deu origem ao chamado Carreiro dos Cações e a sul ao Carreiro do Mosteiro.

A parte maior da ilha, chama-se Berlenga e representa mais de 2/3 da superfície total da ilha; a parte menor chama-se Ilha Velha.


Esquerda: Carreiro da Inês. Centro: Granito rosa usado para a construção do Forte S. João Baptista. Direita: Carreiro dos Cações. Este local foi em tempos um importante local de desova de cações.


Fauna e Flora


Na Berlenga Grande foram inventariadas mais de 100 espécies botânicas, com alguns endemismos resultantes do isolamento da ilha e das particularidades do substrato rochoso, como é o caso da arméria-das-berlengas. Devido às condições inóspitas a presença de espécies arbóreas é quase nula.


A Berlenga é um santuário de aves. Na viagem de barco conseguimos identificar algumas espécies como o alcatraz, a cagarra e a galheta. Existe uma densa população de gaivota-de-asa escura e gaivota-de-patas-amarelas que nidificam na ilha. Esta última tem aumentado bastante devido à disponibilidade de alimento proveniente das pescas e de lixo, por isso é muito importante não alimentar as gaivotas. Um casal de falcões peregrinos que nidifica todos os anos na ilha.


Na Berlenga existe uma população de lagartixas-de-bocage, um endemismo local, com uma distribuição e densidade muito ampla.


Nas águas calmas da Zona de Proteção Especial da Berlenga é possível avistar alguns cetáceos como o golfinho-comum, o roaz, a baleia-piloto e o boto.


Esquerda: Lagartixa-de-bocage. Centro: galheta ou corvo-marinho-de-crista. Direita: Gaivota-de-patas-amarelas.


Visitar a Berlenga


A ilha pode ser visitada durante todo o ano. Entre Novembro e Março, devido às condições marítimas adversas, as visitas são pouco frequentes.

Nós visitamos a Berlenga no final de Junho num dia de sol e de mar calmo, pelo que a viagem, que dura aproximadamente 40 minutos, fez-se bastante bem. Caso enjoe no mar pode sempre tomar um comprimido para o enjoo antes de embarcar.

Nós viajamos com a companhia Julius - Cruzeiros Berlenga.

Para consultar a lista de operadores licenciados que fazem a ligação à ilha, clique neste link: http://www.berlengas.eu/pt/operadores

Dica: Faça a sua reserva online e com antecedência.


Para pernoitar na ilha, existem três opções:

  • Parque de Campismo. Neste momento encontra-se encerrado devido à pandemia, mas foi considerado um dos dez melhores locais para acampar em Portugal. As reservas são geridas pela Câmara Municipal de Peniche.

  • O Forte de S. João Baptista foi requalificado como pousada e que funciona como um hostel com capacidade para 50 pessoas. Possui quartos e camaratas, cozinha partilhada e casas de banho partilhadas. Necessita levar a sua própria roupa de cama, mas terá uma vista espetacular sobre o Oceano Atlântico. Atualmente o Forte é gerido pela Associação Amigos das Berlengas e é com eles que deve reservar a sua dormida (berlengareservasforte@gmail.com).

  • Berlenga Bed & Breakfast, alojamento gerido pelo restaurante A Mesa da Ilha.

A nível de restauração também existem três opções:

  • No Forte de S. João Baptista existe um bar no forte onde pode tomar uma bebida ou comer um snack.

  • Restaurante Mesa da Ilha. Único restaurante da ilha, onde pode comer peixe e marisco fresco.

  • No "Castelinho", uma construção de 1952 com pedras do antigo mosteiro que exisitia na ilha, funciona um micromercado e um snack-bar, o Castelinho da Berlenga onde pode tomar refeições mais ligeiras.

Em relação a apoios, existem duas casas de banho públicas na ilha, uma no Forte e outra no Bairro dos Pescadores.

Dica: É importante que leve consigo dinheiro pois não existe multibanco na ilha.


Berlengas Forte S. João Baptista
Esplanada no Forte S. João Baptista


O que fazer na Berlenga Grande


  • Caminhadas de observação da natureza / património cultural

Existem dois percursos na ilha: o Percurso da Berlenga com 3km de extensão e o Percurso da Ilha Velha com 1km de extensão. Ambos se iniciam no Bairro dos Pescadores, são lineares e estão devidamente sinalizados. A circulação fora dos trilhos não é permitida para proteger e conservar a frágil vegetação da ilha.


Pontos de interesse

Percurso da Berlenga: Carreiro do Mosteiro, Carreiro dos Cações, Farol, Forte de S. João Baptista, Cisternas e Cova do Sono

Percurso da Ilha Velha: Melréu, Buzinas, Pedra Negra, Ilhéu da Velha e Ilhéu Maldito.


Informações úteis

Quando iniciar o percurso, certifique-se que tem tempo para apanhar o barco de volta.

Tenha cuidado com as gaivotas, que podem ser agressivas.

Leve chapéu, protetor solar e água. Na ilha não existe sombras nem água potável.

Traga o seu lixo consigo.

A época aconselhada é de Maio a Setembro. Deve evitar o mês de Agosto.

Apesar de os percursos terem um grau de dificuldade baixo, a subida para o farol é custosa para pessoas em baixa forma.


Do planalto da ilha pode-se avistar as Estelas e os Farilhões.


  • Visitar o Forte S. João Baptista

A visita ao Forte é "obrigatória". A entrada é 1€ e as verbas revertem para a manutenção do Forte. Não deixe de subir até ao terraço para aproveitar as vistas, mas tenha cuidado pois existem áreas sem proteção.

  • Centro de Visitantes

Inaugurado em 2015, é um Centro Interpretativo e de apoio aos visitantes com conteúdos informativos e audiovisuais de divulgações do valores naturais do arquipélago das Berlengas. Está localizado no Bairro dos Pescadores.

  • Passeio às grutas

A beleza natural da ilha com as suas geoformas é melhor ainda se for avistada a partir do mar. Os operadores marítimo-turísticos realizam diariamente passeios às grutas com duração de 1h e o valor ronda os 8€. A companhia Julius - Cruzeiros Berlenga tem ao seu dispor uma lancha de fundo de vidro onde pode observar o fundo do mar e alguns peixes e invertebrados como o pepino-do-mar.

O percurso marítimo tem a extensão aproximada de 2h. Saímos do Cais da Berlenga no Carreiro do Mosteiro e visitamos vários pontos de interesse: o Carreiro da Inês, a Baía da Flandres, Forte de São Baptista, Gruta Azul, Furado Grande, Cova do Sono e Cabeça do Elefante. Nestas baías, por serem abrigadas dos ventos do norte, as águas são mais calmas e os pescadores usam-nas como refúgio. Na Cova do Sono existe uma cavidade natural monumental, também conhecida como "Catedral". Esta tem um tecto em forma de abóbada, cuja base constitui uma pequena praia de cascalho.

No regresso, tem a opção de desembaracar no Forte de São Baptista.



  • Kayak e Stand-up Paddle

A prática destes desportos é dinamizada por vários operadores. Pode alugar um kayak na ilha e visitar livremente as grutas ao redor da ilha, inclusive entrar em alguns túneis onde não é possível entrar de barco.

  • Observação de aves

O arquipélago das Berlengas é o único local em Portugal que alberga colónias de aves marinhas pelágicas, como a cagarra e o roque-de-castro. O airo, apesar de já ter nidificado nesta zona, está hoje extinto como nidificante.

A melhor altura para observar aves é durante a altura da migração pós-nupcial (de Setembro a Novembro). Nesta época algumas aves migradoras procuram refúgio na ilha e são facilmente detetadas devido à ausência de vegetação densa.

  • Mergulho

O arquipélago das Berlengas tem um dos ecossistemas marinhos mais ricos das águas portuguesas, com uma abundante vida subaquática, onde se podem avistar grandes cardumes de peixes, paredes com gorgónias, algumas espécies emblemáticas como o mero e o peixe-lua e antigos barcos afundados colonizados por vida marinha. Por estas razões, esta é uma das atividades mais procuradas pelos visitantes. Existem locais de mergulho em torno da ilha da Berlenga, nas Estelas e nos Farilhões.

  • Praia

No Verão traga a toalha e mergulhe nas águas límpidas da Berlenga Grande. Durante a maré-baixa a praia tem um areal razoável, contudo, durante a maré-cheia fica mais reduzido.




Outros pontos de interesse em Peniche


  • Miradouros

As falésias da Península de Peniche têm vários relevos geológicos e miradouros que merecem uma visita tais como a Papoa ou a Varanda de Pilates. A Nau dos Corvos, junto ao Cabo Carvoeiro, é uma rocha em forma de nau muito frequentada por corvos-marinhos.

  • Museu da Renda de Bilros

A renda de bilros são o ex-líbris do artesanato de Peniche. Este museu têm como objetivo o estudo, a conservação, a valorização e divulgação deste património material e imaterial que faz parte da herança e identidade das gentes de Peniche.

  • Peniche Capital da Onda

As praias de Peniche são um excelente spot de surf.

  • Gastronomia

Se vai a Peniche, experimente algumas especialidades locais tais como a Caldeirada de Peniche, a Sopa de Peixe, a Lagosta Suada à Moda de Peniche e a Sardinha Assada.

  • CIAB - Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia

  • Fortaleza de Peniche


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